Dito Assim Parece à Toa






15/01/2007 21:13

Pausa





Dada a aparente censura, que não consegui resolver, esta filial do Dito Assim fica por ora congelada. Tem post novo lá. Desculpe o transtorno.
enviada por Jayme



12/01/2007 13:46

Juizadas





Sábia decisão, a do juiz de Guarulhos, que proíbe estrangeirismos em espaçoes comerciais sem a devida tradução. Aldo Rebelo está fazendo escola. Para facilitar a vida dos nossos imperializados comerciantes, vai aqui um pequeno glossário para aplicação nas vitrines (ops, nas montras -- "montra" é a palavra em português para esse horroroso galicismo, "vitrine") ou nas lojas de forma geral. Vamos lá:

Off - Fora
Sale - Venda
Ticket - Bilhete
Néon - Neônio
Display - Exposição
Backlight - Luz Atrás
Frontlight - Luz na frente
Bar - Barra (talvez a mais antiga das odiosas invasões, mas agora passível de recuo)
Boite - Caixa
Guichet - Janelinha

Claro, isso é apenas o começo. Mas já ajuda. Breve, poderemos ouvir: "A barra aceita bilhete?" "Sim, passe na janelinha". Dá gosto ver como as instituições cada vez mais privilegiam o que é importante para o Brasil.

PS: Hoje, o post do outro Dito Assim é diferente deste. Tentativas.
enviada por Jayme



11/01/2007 15:29

A verdadeira sorte





Um sujeito ganhou 51 milhões na mega-sena. Toda vez que aparece uma notícia como essa, a gente pensa: "esse nasceu de cu pra lua" ou talvez algo menos chulo.

Mas, de uns tempos para cá, eu fico tentando pensar no contexto. Outro dia, um cara ganhou na mega-sena e foi assassinado no mesmo dia. Esse que ganhou agora, como será o resto da vida dele? E se o cara tem um mau-hálito tão infernal que ninguém consegue ficar perto dele? Imagine, ficando milionário, a coisa piora, ninguém terá coragem de avisar e o novíssimo rico ou novo riquíssimo estará fadado a ser mal-amado por dez entre dez portadores do sentido do olfato.

Por outro lado, é possível que ele não tenha noção de como gastar tanta grana e, assim, seja enganado por espertinhos ou guarde tudo no colchão, alimentando as traças e ficando sem nada no fim da vida. E se ele pertence a uma religião que não permite riqueza? Pense só, será obrigado a doar tudo aos sacerdotes de sua seita, que construirão um enorme e inútil monumento no Planalto Central.

Pode ser também que o cara seja um bandido procurado, que não possa aparecer em lugar nenhum sob pena de ser preso e passar o resto dos dias na cadeia. Já pensou? Aquele bilhetinho na mão valendo milhões, e nada a fazer a respeito?

Mas há uma situação pior. O cara pode ter conferido o bilhete enquanto fazia xixi em um sórdido banheiro público. Com o impacto da emoção, pode ter largado o papelzinho, que terá caído no vaso imundo. Como suas únicas alternativas terão sido perder o papelzinho ou pôr a mão literalmente na merda, o resultado terá sido uma tremenda hepatite. O que é ter 50 bi, se você não puder se levantar da cama?

Isso tudo sem falar no cara que vai ser enganado pelo primo, o que gastará tudo com a namorada, que o bandonará quando a grana acabar, o outro, drogado, que será vítima de uma overdose motivada só pela repentina fartura.

Não. É mesmo muito perigoso esse negócio de ganhar 50 bilhões. Preciso comemorar mais essa semana sem ter tido esse destino cruel.
enviada por Jayme



09/01/2007 13:33

Tiros em Higienópolis





Odeio a frase "Não falei?" Pois não há outra para ser dita agora. Na semana passada, um empresário (no caso, um eufemismo para herdeiro) chamado Caio Sérgio Vicente de Azevedo Toledo foi à casa da ex-mulher, junto com a atual namorada. Ao chegar, encontrou a vaga na garagem do apartamento ocupada por um carro que não era o da ex-mulher -- ela estava de férias -- mas sim do atual namorado dela. O homem se enfureceu e tentou atear fogo ao carro. Foi convencido pelo porteiro e pela namorada de que talvez não fosse a melhor maneira de resolver a pendenga. Nesse instante, apareceu o dono do carro, o comerciante Eduardo Forte Braitt. O ainda irritado empresário sacou de uma arma, deu-lhe uma coronhada e, aos berros o ameaçou. O sujeito correu, foi perseguido pelo empresário e, finalmente, morto com um tiro no rosto.

Um filho da puta, você dirá. Ou um louco, débil mental. Ou ainda um quatrocentão mimado que não gosta de ser contrariado. Tudo bem, tendo a concordar com as três possibilidades e mais algumas. Mas o fato é que, se esse filho da puta mimado, arrogante, irresponsável, mal-formado ou o que for, não estivesse armado, o máximo que poderia ter acontecido seria um boletim de ocorrência com acusações mútuas de agressões e umas tantas escoriações constatadas no exame de corpo de delito.

A questão, já falada aqui na época do plebiscito, é, em bom português: paisano armado só faz cagada. Ou se fere sozinho ou fere inocentes. Na maior parte das vezes, fere inocentes, incluindo aí namoradas, amigos, ex-amigos, ex-namoradas, filhos, mulheres, parentes, transeuntes. O bandido é mais preparado, mais corajoso e mais determinado. Os caios são sempre manés, por mais que pareçam príncipes ou lutadores de jiu-jitsu -- ou de sumô, como na maioria das vezes.

O caso desse quatrocentão não vai comover ninguém a melhorar a legislação, a buscar civilizar um pouco mais nossa sociedade malformada. Outros imbecis como ele continuarão armados, sempre achando que, na hora H eles resolvem, só para repetir o que é infalível: ou sujam as cuecas de cocô ou sujam a própria história de sangue alheio.

Não resta colocar aqui nenhuma filosofia. Apenas dizer que vai acontecer outra vez, e outra, e outra. Tanto os quatrocentôes quanto os imigrantões que derem os tiros continuarão achando que a culpa é do outro. Ou do governo. E na próxima eleição, se houver, toparão a maioridade penal de 14 anos. E continuarão falando mal do outro e do político.

Nós nos merecemos, e às balas que deixamos voar por aí.
enviada por Jayme



05/01/2007 12:15

Até segunda-feira, quando eu volto a trabalhar





Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
Um pescador me confirmou
Que um passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Ando cansado da lida
Preocupada, corrida, surrada, batida
Dos dias meus
Mas uma vez na vida
Eu vou viver
A vida que eu pedi a Deus.


(Já disse o bom Chico)

enviada por Jayme



04/01/2007 12:30

2007






O primeiro texto de 2007 deve, antes de tudo, desejar feliz 2007.
Depois, só para estalar as juntas e começar de novo, vale comentar mais um capítulo de uma guinada histórica que está por vir: o mundo parece mesmo caminhar para o fim da democracia como a conhecemos. Basta ver os telejornais para ter certeza disso.
Pegando o Jornal da Globo de ontem e tomando temas aleatoriamente, vemos que o mais destacado foi a filmagem clandestina do enforcamento de Saddam Hussein. Pouco se fala de que este foi uma ato arbitrário e um aleijão jurídico, além da óbvia transgressão aos mais comezinhos direitos da pessoa humana, mesmo considerando que a vítima atentava de forma contumaz contra eles.Um dos princípios da Justiça como a conhecemos hoje é o de que ela substitui a vingança pelo cumprimento da Lei. Mas o grande destaque é para o fato de alguém ter filmado as barbaridades cometidas e ditas ali, aparentemente com um celular. Ora essa, alguém duvidava de que isso ocorreria? Alguém ainda acha que no mundo atual é possível guardar segredos? Ao fim, prenderam um policial de baixa patente e pronto.
A partir de agora, Saddam virará herói, mártir, e todas as barbaridades que cometeu estão, no imaginário popular, zeradas pela barbaridade cometida contra ele, que, aliás, soube zelar pela própria imagem em seus segundos finais - habilidade macabra, coisa de psicopata, mas sem dúvida, uma performance de mestre. Em todas as filmagens tremidas, a única figura digna é a dele.
Em seguida, a TV mostrou os protestos dos sunitas e deu mais um balanço do número de mortos na guerra cada vez mais fora de controle. Em contrapartida mostra Bush acenando a seus eleitores com a mesma cara de débil mental de sempre e cita declarações anônimas de autoridades americanas que vão na linha do "Pô, mas eles não vêem o que o cara fez em 25 anos, só vêem o que fizeram com ele em dez minutos?" "Puxa, olha só, não foi a gente que fez isso, foram os iraquianos, esses brutamontes, que mataram lá um deles, com os métodos deles". Esses caras não vêem que o império deles está chegando a fim. E o pior: por culpa deles. E, pior ainda, o que vem é ainda pior. O império americano, neste começo de século, conseguiu fazer aquela profecia, atribuída a Marx ou um de seus discípulos - "o mundo caminha para o socialismo ou para a barbárie" -, finalmente decidir para que lado vai - e, definitivamente, não é o do socialismo. Hoje, isso já pode ser visto na TV.
A Globo mostra também os suplentes de deputados, que vão assumir o lugar de colegas que foram para os governos recém-empossados, diplomados em pleno recesso - ou seja, sem nenhum trabalho a fazer, com o Congresso fechado. Estes caras vão ganhar não apenas o salário de deputado - o que até pode soar justo - como também as verbas extras, que não têm como ser usadas. O resultado é um só: o parlamento vai aos poucos cultivando sua própria imagem de instituição cara e dispensável.
Por fim, os atentados no Rio: há mostra maior de que este ano poderá até ser feliz, mas de novo não tem nada?
enviada por Jayme



26/12/2006 16:55

Hipocrisia e carolice




Piergiorgio Welby ainda jovem

Na quinta-feira passada, o italiano Piergiorgio Welby morreu de insuficiência respiratória causada pela evolução de uma distrofia muscular progressiva que já havia causado a perda de seus movimentos e mesmo da capacidade de se comunicar com as outras pessoas por seus próprios meios. O que mantinha Welby vivo era a ação de um aparelho que o fazia respirar. Há anos ele queria que o aparelho fosse desligado para que pudesse morrer em paz e com um mínimo de dignidade.

Na quinta-feira, o médico anestesista Mario Riccio aceitou os apelos do paciente e da família e, depois de sedar Welby, desligou o aparelho. Welby, enfim, foi desta para melhor -- no caso dele, a literalidade da expressão é indiscutível.

Pois não é que a carolice hipócrita dos padrecos romanos, que não se avexam em apoiar ou aceitar placidamente a pena de morte quando perpetrada por gente que lhes dá o dízimo, decidiu negar a Welby o direito a um enterro cristão? O Vicariato de Roma negou à família a autorização para que se realizassem exéquias religiosas por ter o italiano manifestado publicamente a vontade de pôr fim a própria vida, o que contrastaria com a doutrina católica.

É de perversão que estamos falando. Em função de ter o paciente exposto sua vontade de morrer, os vigários julgaram que ele merecia uma condenação ao suplício eterno. Morto, mereceu o tratamento dos pagãos, a negação, para quem é católico, da paz.

Como é que essa gente pode vir falar de piedade, tolerância, amor? Como é que esses hipócritas de batina podem vir a público e dizer "amai-vos uns aos outros"? Com que suporte ético podem criticar a intolerância, se alegam coisas como "não podemos saber se o paciente fez o pedido porque recusava um tratamento que, para ele, era insuportável, ou se o paciente fez o pedido para o transformar numa batalha política e, com isso, obter uma lei que abra caminho para a eutanásia", como fez o bispo Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifícia para a Vida (nomezinho não menos hipócrita)? O direito romano prega: in dubio pro reu. Os padrecos de Roma fazem o contrário.

Declaro, pois, não ter nenhuma relação espiritual com esses porcos de batina que impõem a uma mãe a pena de carregar um feto anencéfalo até o fim da gravidez, que apóiam gente como Costa e Silva e Oliveira Salazar, que preferem a AIDS à camisinha, a multiparidade das mulheres pobres ao uso da pílula. Essa gente não merece o meu respeito. Que me neguem, também, quando chegada a hora, as exéquias que proibiram a Piergiorgio Welby.

Agora, quero ver como esses padrecos, tão ciosos da seleção de quem merece ou não ser sepultado seguindo seus ritos, vão lidar com as exéquias a celebrar durante o sepultamento do primeiro coleguinha pedófilo que vier a falecer.
enviada por Jayme



20/12/2006 18:26

Atitudes





Outro dia tomei um táxi para ir do Alto de Pinheiros até o meu Pinheiros nem tão alto. Apenas uma Vila Madalena separa os dois bairros, de modo que não houve muito tempo para entabular qualquer conversa com o taxista, até porque ele parecia de poucas palavras.

Ao chegar, abro a carteira para pagar e vejo que tenho apenas uma nota de R$ 50,00, para uma corrida de R$ 11,00. O taxista, de início, pareceu constrangido. Em seguida, começou a mostrar uma irritação contida, e disse: "Essa é a sexta nota de 50 hoje!" Com a cara fechada, pegou uma carteira escondida não sei onde e me deu os R$ 39,00 -- que ele tinha, apesar da reclamação. Desci e agradeci, ao que ele não respondeu, enquanto guardava a carteira no porta-luva, fechando-o com força.

Pensei então naquilo que fazemos com o que o destino -- ou a providência, o acaso, chame-se como for -- nos traz. O taxista em questão estava irritado porque tinha precisado fazer troco para 50 reais por seis vezes naquele dia. Próximo a onde paramos, há barraquinhas clandestinas cujos vendedores adorariam ter de fazer troco para 50 umas 60 vezes. São, na piadinha famosa, os caras que ganharam a lata de cocô e querem saber onde está o cavalo, enquanto o taxista, com seu carro mais ou menos novo e sua carteira cheia de notas de 10, que ele lamentava estarem indo embora, é o filho deprimido que ganhou a bicicleta, a lamentar o futuro prego que certamente lhe furaria o pneu.

Não cheguei sequer a ficar irritado, imediatamente me deu pena. Não do taxista, mas de pessoas como ele que conhecemos, e que não temos como avisar que estão olhando para o lado errado da cena. Há uma família amiga que tem um restaurante próximo do meu escritório. Era gente com alguma grana, que acabou perdendo tudo, ou quase, tentando fazer do filho um piloto de ponta no automobilismo internacional. O talentoso rapaz teve pouca sorte, acabou sofrendo um acidente que lhe abreviou a promissora carreira. Com o que restou das economias, fizeram o restaurante no térreo de um grande sobrado de sua propriedade, indo morar no andar de cima. Pelo capricho com que a mãe faz as coisas, acabaram conseguindo sucesso no empreendimento, que é tocado pela família: o pai faz as vezes de "host", a mãe e a sogra cuidam da cozinha, o filho, do caixa. Vez por outra, a casa fica cheia. E aí, se vê algo curioso: quando a casa lota, pai e filho põem-se a praguejar, desconsolados por ter de ouvir reclamações, ajudar a lavar pratos ou dar uma força na cozinha. Maldizem a prece atendida. São ótimas pessoas, mas míopes para ver os cavalos por trás da lata.

Por que lembrar disso agora? Não sei, mas acho que é uma forma de exercitar meu próprio julgamento das coisas, eu tão inclinado a desviar o olhar daquelas que são prêmios, ou olhá-las imaginando que a taça cairá sobre a minha cabeça.

A vida me deu cavalos suficientes para eu conduzir uma caravana inteira. Só não os deu embrulhados em papel de seda. Alguns vieram com grandes baldes de cocô, outros apenas disfarçados de bois, outros ainda a serem retirados em um correio longínquo. Mas todos cavalos, de boa raça. Meu desejo de ano novo é ser capaz de escová-los, encilhá-los e me pôr a caminho. Lembrando sempre de lhes garantir um merecido torrão de açúcar.
enviada por Jayme



19/12/2006 11:25

O mané da oposição situacionista





Chover no molhado, pode ser. Afinal, só a questão do aumento do subsídio dos parlamentares parece unir a torcida do Coríntians e a do Palmeiras, a do Flamengo e a do Vasco. Todo mundo falou -- mal -- disso.

Mas há algo a observar em mais essa desastrada iniciativa do nosso ineficiente parlamento, que começou a legislatura com a grita das CPIs e vai terminando com os ecos de mensalão, sanguessugas, pizzas para todo lado e, agora, o coroamento do reajuste indecente.

Se formos olhar a origem do aumento de 91%, obviamente vamos enxergar uma vontade latente de muitos parlamenmtares pela equiparação de seus vencimentos aos dos ministros do Supremo (em nome do tal equilíbrio dos poderes -- ninguém, no entanto, cogitou equiparar os vencimentos ao do Executivo, pouco menos de R$ 9 mil por mês). No entanto, assim ela permanecia: uma vontade latente. Até que, belo dia, o PT decide que, para que seu status político, sua representatividade junto aos poderes, sua influência ante um governo que não é mais seu, pudessem ser mantidos, seria necessário tomar a presidência da Câmara, ora em mãos do deputado Aldo Rebelo, alíás, indicação e consenso da situação, e não da oposição. Mas enfim, o PT pensa de uma forma bastante peculiar e consegue fazer oposição sendo situação.

Peculiaridades à parte, o partido da situação lança como candidato de oposição o deputado paulista Arlindo Chinaglia, homem de história no partido e na CUT e, mais engraçado -- se não fosse esquisito -- líder do governo na Câmara (governo que trabalha pela candidatura Aldo).

E o que faz Chinaglia ao enunciar sua primeira promessa de campanha? Resolve encantar o baixo clero, de pouca qualidade mas decisiva quantidade, e lança a proposta do tal aumento de 91%. Com isso, empareda Aldo, que não tem outra saída a não ser encampar a proposta. Isso tudo posto, o que era vontade latente, quase uma daquelas feias de comentar com as crianças na sala, torna-se bandeira, pauta prioritária e, de um dia para o outro, decisão tomada pelo colégio de líderes e implementada.

A grita, obviamente, foi geral, com direito a protestos como a facada nas costas do deputado ACM Neto, o velhinho se acorrentando a uma coluna do prédio do Congresso, o senador Suplicy exibindo sua vivacidade, os abaixo-assinados de maior ou menos bizarria na internet, jornais e jornalistas como pinto no lixo.

Com essa fuzarca toda, acende uma lâmpada vermelha ali no forno do PT e alguém logo grita: "Chi, esquecemos do povo!" Ato contínuo, um imenso coro passa a berrar: "Quem, eu? Aumento, onde? 91%? Que escândalo!" E aí, resta lá o fabuloso senso de oportunidade do aprendiz de feiticeiro Chinaglia, solenemente a segurar a brocha, enquanto os companheiros procuram encostar a escada em muro mais prudente.

A moral dessa história sem moral é, de novo, a que mostra que toda vez que um otário tenta manejar a navalha do malandro, acaba se cortando feio. Se fosse só isso, tudo bem, problema do otário. O duro é ver a lambança aparentemente irreversível que o panaca provocou.
enviada por Jayme



18/12/2006 18:11

Para sempre





Álvaro fez a pergunta que lhe estava cravada na garganta: "Quem é?" Rúbia sorriu antes de responder: "Você tem uma doença auto-imune". Já na rua, ele tomou-lhe a frente para abrir a porta do carro. Ao dar a volta, ajeitou o colarinho, os olhos cegos pela visão das belas pernas no banco do passageiro. A festa seria seu fim.

No caminho, procurou ser ameno. "Essas festas nos K. são sempre um pouco snobs, não acha?" Ela sorriu. "Eu disse isso no ano passado." Não ligou para o sinal amarelo, o que a irritou um pouco. Era o que ele queria. Não falaram mais até a hora de armar o sorriso e descer para a festa. A porta da casa tinha pelo menos meia dúzia de manobristas e um burburinho encenado. Ficou inquieto quando o manobrista alto e forte foi abrir a porta dela, como mandaria o figurino. Aquelas pernas. Por que aquelas pernas?

Ela desceu sorrindo, esse era o problema além das pernas. Foi encantando cada um até a entrada da casa, e festa adentro. Ali, foi sumindo aos poucos do seu olhar, ele era lento demais para segui-la. Em poucos minutos, desistiu. O primeiro uísque apareceu para acompanhar seus pontos de interrogação. O segundo chegou junto com o casal anfitrião, a quem ele reservou mesuras e inteligências, gesticulando com o copo, à forma de brindes excessivos. Rodopiou aqui e ali, falando com um, apresentando outros dois, mostrando-se solícito, simpático, sedutor. O terceiro uísque veio do lado da bandeja oposto ao que servia a uma bela e curiosa conviva. Apresentaram-se.

Rúbia chegou sorridente em casa. Álvaro tinha sido uma companhia de risco naquele trajeto. Tinha, como sempre, bebido além da conta. Ela tinha moderado seu riso, agora mais delicado e carinhoso. Ele não lhe abriu a porta do carro, e entrou barulhento em casa. Ela não esperou boas-noites, não viriam, ainda teve disposição para pôr um uísque no copo. "Uísque?", ele balbuciou. "Uísque", ela respondeu, enquanto fixava os olhos nele, sorrindo. "Onde você andou a noite toda?" "Perto de você, bem perto de você", ela respondeu, sem deixar de sorrir, enquanto a ele ia restando só subir a escada conformado e praguejando, praguejando e conformado.

Ele já babava no travesseiro quando ela pegou o telefone. Fazer o quê? Ele a obrigava a isso. Toda vez. Contra sua vontade. Mas fazer o quê?
enviada por Jayme



14/12/2006 15:52

Mini 83

Não só existia Guadelupe, como era eu o portador do recado destinado a ela, lacrado e bem sobrescritado. Os últimos metros de calçada me deram alguma inquietação, mas abri o portão e subi a curta escada que levava ao terraço estreito e, daí, à porta. Havia uma pequena aldrava de ferro. Bati duas vezes. Ninguém. Bati de novo. Nada. Ia bater pela terceira vez, quando apareceu à porta um velho bem vestido. "Senhora Guadelupe?" O velho apenas estendeu a mão. Hesitei. Ele insistiu com o olhar. Dei-lhe o envelope. "Senhora Guadelupe... Preciso esperar a resposta." Sorriu, sumiu um segundo atrás da porta. Quando abriu, a mulher do cartaz era mais velha. Fitou-me, triste e raivosa. Devolveu-me o envelope.Diferente das fotos, não parecia ter seios.
enviada por Jayme



13/12/2006 15:34

Se fué el hijo de puta



Tem festa no inferno: morreu Pinochet. Ontem, minha amiga querida Eliana lembrou aqui que, em lugar da fuga das calcinhas, eu deveria ter falado dessa negra efeméride. Tem razão, e, com o devido atraso (este é um blog-caravela), vamos ao assunto.

Minhas filhas são netas de um exilado político que viveu no Chile por nove anos. A mãe delas fala espanhol como uma chilena. Pelas mãos dela e com ela, conheci, em 1989, plena campanha eleitoral do que sucederia à ditadura, um pouco daquele país ainda começando a mitigar os machucados do golpe de estado de 73, quando aquele oportunista sangüinário, ora imerso em uma piscina de excremento em ebulição, passou de ministro da guerra do presidente Allende a seu algoz, em mais ou menos dois dias.

O Chile era então a mais estável democracia da América do Sul, com 70 anos de estado de direito, fundado em alternância de poder, partidos constituídos, parlamento funcionando, enfim, nada a dever a uma democracia européia típica. Há quem queira atribuir tudo isso à imigração alemã do fim do século 19, começo do século 20, que teria feito um bom pendant com a latinidade do país. Há quem ache essa teoria um horror. Não importa, o fato é que ali havia uma ilha de civilização neste continente atrasado, no qual os dois países mais ricos tinham uma história política que se alternava entre o burlesco e o carnavalesco, com imperadores, generais, marechais e até vedetes tomando a cena e o poder. O Chile produzia cultura, reunia intelectuais exilados das ditaduras dos vizinhos, sediava organizações internacionais, e, como um bom país civilizado dos anos 60 e 70, discutia seu destino político levando em conta o sonho que as esquerdas cultivavam, de uma sociedade mais justa e igualitária, com o povo no poder, em lugar de uma burguesia exploradora, com a riqueza sendo dividida, mais do que com justiça, com largueza, “de cada um, de acordo com suas possibilidades, a cada um de acordo com suas necessidades”.

O povo se apaixonou por Salvador Allende e pela UP (Unidad Popular), a coligação de (quase) todas as esquerdas, que prometia tornar real o sonho de uma sociedade mais igual. A Democracia Cristã do então presidente Eduardo Frei (pai deste Eduardo Frei Ruiz Tagle que foi o segundo presidente eleito depois da restauração da democracia) perdeu feio, e o sonho socialista parecia chegar à América do Sul pela via democrática.

A vida real se mostrou mais ingrata, e o projeto socialista de Allende começou a gerar problemas econômicos sérios. Estatizações precipitadas, congelamento de preços, somados a um combate implacável da burguesia derrotada, que teve um ápice na crise da greve dos caminhões, com desabastecimento, enfrentamento nas ruas e até a morte de um cinegrafista americano que filmou seu próprio algoz -- cena famosa nos anais do telejornalismo --, tudo isso montou um cenário em que o presidente ficou extremamente fragilizado.

Mas como se deu o golpe, tendo em conta que, até então, os militares chilenos eram apenas coadjuvantes respeitosos dos governos e do Estado? A paranóia americana instalou na crise o que a ela faltava. O secretário de Estado Henry Kissinger, um alemão naturalizado americano, que certamente foi o homem mais influente do mundo naqueles tempos, urdiu o apoio financeiro e logístico que incentivou os até então discretos e disciplinados militares chilenos a se insurgir e derrubar o presidente e o estado de direito. Tudo em nome da Guerra Fria.

Foi com dinheiro e logística dos EUA que o oportunista chegou ao poder. Foi Kissinger quem fabricou Pinochet. Por isso tudo é que hoje, enquanto levanto aqui diante deste teclado, um brinde solitário ao fim desse signo do mal, me pergunto como é que este mundo, hoje convencido de que a democracia é mesmo um valor absoluto, ainda não colocou Henry Kissinger na mesma sala de horrores da história em que estão depositados Hitler e Mussolini. Kissinger é exatamente a mesma coisa que os dois. Só que com a lógica do franchising.

***
Como se vê, dá para escrever mais um quilômetro sobre o assunto. O próximo capítulo deveria versar sobre a conversão de Patricio Aylwin, de colaboracionista a condutor maior da transição. A vida tem dessas coisas. Não sei se sou capaz de falar mais delas com a devida propriedade.
enviada por Jayme



13/12/2006 15:18

Cheirando a tinta

Depois de diversas pendengas como o Blogger Brasil, desisti. Entre sumir e mudar de casa, preferi a segunda opção. Terei saudades do template velho (opção previamente oferecida, mas pela qual me afeiçoei), perderei leitores, tudo vai começar de novo. Mas tudo bem, pelo menos parece que fugirei dessa sina de sair bimestralmente do ar.
enviada por Jayme






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