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09/01/2007 13:33
Tiros em Higienópolis

Odeio a frase "Não falei?" Pois não há outra para ser dita agora. Na semana passada, um empresário (no caso, um eufemismo para herdeiro) chamado Caio Sérgio Vicente de Azevedo Toledo foi à casa da ex-mulher, junto com a atual namorada. Ao chegar, encontrou a vaga na garagem do apartamento ocupada por um carro que não era o da ex-mulher -- ela estava de férias -- mas sim do atual namorado dela. O homem se enfureceu e tentou atear fogo ao carro. Foi convencido pelo porteiro e pela namorada de que talvez não fosse a melhor maneira de resolver a pendenga. Nesse instante, apareceu o dono do carro, o comerciante Eduardo Forte Braitt. O ainda irritado empresário sacou de uma arma, deu-lhe uma coronhada e, aos berros o ameaçou. O sujeito correu, foi perseguido pelo empresário e, finalmente, morto com um tiro no rosto.
Um filho da puta, você dirá. Ou um louco, débil mental. Ou ainda um quatrocentão mimado que não gosta de ser contrariado. Tudo bem, tendo a concordar com as três possibilidades e mais algumas. Mas o fato é que, se esse filho da puta mimado, arrogante, irresponsável, mal-formado ou o que for, não estivesse armado, o máximo que poderia ter acontecido seria um boletim de ocorrência com acusações mútuas de agressões e umas tantas escoriações constatadas no exame de corpo de delito.
A questão, já falada aqui na época do plebiscito, é, em bom português: paisano armado só faz cagada. Ou se fere sozinho ou fere inocentes. Na maior parte das vezes, fere inocentes, incluindo aí namoradas, amigos, ex-amigos, ex-namoradas, filhos, mulheres, parentes, transeuntes. O bandido é mais preparado, mais corajoso e mais determinado. Os caios são sempre manés, por mais que pareçam príncipes ou lutadores de jiu-jitsu -- ou de sumô, como na maioria das vezes.
O caso desse quatrocentão não vai comover ninguém a melhorar a legislação, a buscar civilizar um pouco mais nossa sociedade malformada. Outros imbecis como ele continuarão armados, sempre achando que, na hora H eles resolvem, só para repetir o que é infalível: ou sujam as cuecas de cocô ou sujam a própria história de sangue alheio.
Não resta colocar aqui nenhuma filosofia. Apenas dizer que vai acontecer outra vez, e outra, e outra. Tanto os quatrocentôes quanto os imigrantões que derem os tiros continuarão achando que a culpa é do outro. Ou do governo. E na próxima eleição, se houver, toparão a maioridade penal de 14 anos. E continuarão falando mal do outro e do político.
Nós nos merecemos, e às balas que deixamos voar por aí.
enviada por Jayme
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