Dito Assim Parece à Toa






26/12/2006 16:55

Hipocrisia e carolice




Piergiorgio Welby ainda jovem

Na quinta-feira passada, o italiano Piergiorgio Welby morreu de insuficiência respiratória causada pela evolução de uma distrofia muscular progressiva que já havia causado a perda de seus movimentos e mesmo da capacidade de se comunicar com as outras pessoas por seus próprios meios. O que mantinha Welby vivo era a ação de um aparelho que o fazia respirar. Há anos ele queria que o aparelho fosse desligado para que pudesse morrer em paz e com um mínimo de dignidade.

Na quinta-feira, o médico anestesista Mario Riccio aceitou os apelos do paciente e da família e, depois de sedar Welby, desligou o aparelho. Welby, enfim, foi desta para melhor -- no caso dele, a literalidade da expressão é indiscutível.

Pois não é que a carolice hipócrita dos padrecos romanos, que não se avexam em apoiar ou aceitar placidamente a pena de morte quando perpetrada por gente que lhes dá o dízimo, decidiu negar a Welby o direito a um enterro cristão? O Vicariato de Roma negou à família a autorização para que se realizassem exéquias religiosas por ter o italiano manifestado publicamente a vontade de pôr fim a própria vida, o que contrastaria com a doutrina católica.

É de perversão que estamos falando. Em função de ter o paciente exposto sua vontade de morrer, os vigários julgaram que ele merecia uma condenação ao suplício eterno. Morto, mereceu o tratamento dos pagãos, a negação, para quem é católico, da paz.

Como é que essa gente pode vir falar de piedade, tolerância, amor? Como é que esses hipócritas de batina podem vir a público e dizer "amai-vos uns aos outros"? Com que suporte ético podem criticar a intolerância, se alegam coisas como "não podemos saber se o paciente fez o pedido porque recusava um tratamento que, para ele, era insuportável, ou se o paciente fez o pedido para o transformar numa batalha política e, com isso, obter uma lei que abra caminho para a eutanásia", como fez o bispo Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifícia para a Vida (nomezinho não menos hipócrita)? O direito romano prega: in dubio pro reu. Os padrecos de Roma fazem o contrário.

Declaro, pois, não ter nenhuma relação espiritual com esses porcos de batina que impõem a uma mãe a pena de carregar um feto anencéfalo até o fim da gravidez, que apóiam gente como Costa e Silva e Oliveira Salazar, que preferem a AIDS à camisinha, a multiparidade das mulheres pobres ao uso da pílula. Essa gente não merece o meu respeito. Que me neguem, também, quando chegada a hora, as exéquias que proibiram a Piergiorgio Welby.

Agora, quero ver como esses padrecos, tão ciosos da seleção de quem merece ou não ser sepultado seguindo seus ritos, vão lidar com as exéquias a celebrar durante o sepultamento do primeiro coleguinha pedófilo que vier a falecer.
enviada por Jayme






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