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19/12/2006 11:25
O mané da oposição situacionista
Chover no molhado, pode ser. Afinal, só a questão do aumento do subsídio dos parlamentares parece unir a torcida do Coríntians e a do Palmeiras, a do Flamengo e a do Vasco. Todo mundo falou -- mal -- disso.
Mas há algo a observar em mais essa desastrada iniciativa do nosso ineficiente parlamento, que começou a legislatura com a grita das CPIs e vai terminando com os ecos de mensalão, sanguessugas, pizzas para todo lado e, agora, o coroamento do reajuste indecente.
Se formos olhar a origem do aumento de 91%, obviamente vamos enxergar uma vontade latente de muitos parlamenmtares pela equiparação de seus vencimentos aos dos ministros do Supremo (em nome do tal equilíbrio dos poderes -- ninguém, no entanto, cogitou equiparar os vencimentos ao do Executivo, pouco menos de R$ 9 mil por mês). No entanto, assim ela permanecia: uma vontade latente. Até que, belo dia, o PT decide que, para que seu status político, sua representatividade junto aos poderes, sua influência ante um governo que não é mais seu, pudessem ser mantidos, seria necessário tomar a presidência da Câmara, ora em mãos do deputado Aldo Rebelo, alíás, indicação e consenso da situação, e não da oposição. Mas enfim, o PT pensa de uma forma bastante peculiar e consegue fazer oposição sendo situação.
Peculiaridades à parte, o partido da situação lança como candidato de oposição o deputado paulista Arlindo Chinaglia, homem de história no partido e na CUT e, mais engraçado -- se não fosse esquisito -- líder do governo na Câmara (governo que trabalha pela candidatura Aldo).
E o que faz Chinaglia ao enunciar sua primeira promessa de campanha? Resolve encantar o baixo clero, de pouca qualidade mas decisiva quantidade, e lança a proposta do tal aumento de 91%. Com isso, empareda Aldo, que não tem outra saída a não ser encampar a proposta. Isso tudo posto, o que era vontade latente, quase uma daquelas feias de comentar com as crianças na sala, torna-se bandeira, pauta prioritária e, de um dia para o outro, decisão tomada pelo colégio de líderes e implementada.
A grita, obviamente, foi geral, com direito a protestos como a facada nas costas do deputado ACM Neto, o velhinho se acorrentando a uma coluna do prédio do Congresso, o senador Suplicy exibindo sua vivacidade, os abaixo-assinados de maior ou menos bizarria na internet, jornais e jornalistas como pinto no lixo.
Com essa fuzarca toda, acende uma lâmpada vermelha ali no forno do PT e alguém logo grita: "Chi, esquecemos do povo!" Ato contínuo, um imenso coro passa a berrar: "Quem, eu? Aumento, onde? 91%? Que escândalo!" E aí, resta lá o fabuloso senso de oportunidade do aprendiz de feiticeiro Chinaglia, solenemente a segurar a brocha, enquanto os companheiros procuram encostar a escada em muro mais prudente.
A moral dessa história sem moral é, de novo, a que mostra que toda vez que um otário tenta manejar a navalha do malandro, acaba se cortando feio. Se fosse só isso, tudo bem, problema do otário. O duro é ver a lambança aparentemente irreversível que o panaca provocou.
enviada por Jayme
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