Dito Assim Parece à Toa






20/12/2006 18:26

Atitudes





Outro dia tomei um táxi para ir do Alto de Pinheiros até o meu Pinheiros nem tão alto. Apenas uma Vila Madalena separa os dois bairros, de modo que não houve muito tempo para entabular qualquer conversa com o taxista, até porque ele parecia de poucas palavras.

Ao chegar, abro a carteira para pagar e vejo que tenho apenas uma nota de R$ 50,00, para uma corrida de R$ 11,00. O taxista, de início, pareceu constrangido. Em seguida, começou a mostrar uma irritação contida, e disse: "Essa é a sexta nota de 50 hoje!" Com a cara fechada, pegou uma carteira escondida não sei onde e me deu os R$ 39,00 -- que ele tinha, apesar da reclamação. Desci e agradeci, ao que ele não respondeu, enquanto guardava a carteira no porta-luva, fechando-o com força.

Pensei então naquilo que fazemos com o que o destino -- ou a providência, o acaso, chame-se como for -- nos traz. O taxista em questão estava irritado porque tinha precisado fazer troco para 50 reais por seis vezes naquele dia. Próximo a onde paramos, há barraquinhas clandestinas cujos vendedores adorariam ter de fazer troco para 50 umas 60 vezes. São, na piadinha famosa, os caras que ganharam a lata de cocô e querem saber onde está o cavalo, enquanto o taxista, com seu carro mais ou menos novo e sua carteira cheia de notas de 10, que ele lamentava estarem indo embora, é o filho deprimido que ganhou a bicicleta, a lamentar o futuro prego que certamente lhe furaria o pneu.

Não cheguei sequer a ficar irritado, imediatamente me deu pena. Não do taxista, mas de pessoas como ele que conhecemos, e que não temos como avisar que estão olhando para o lado errado da cena. Há uma família amiga que tem um restaurante próximo do meu escritório. Era gente com alguma grana, que acabou perdendo tudo, ou quase, tentando fazer do filho um piloto de ponta no automobilismo internacional. O talentoso rapaz teve pouca sorte, acabou sofrendo um acidente que lhe abreviou a promissora carreira. Com o que restou das economias, fizeram o restaurante no térreo de um grande sobrado de sua propriedade, indo morar no andar de cima. Pelo capricho com que a mãe faz as coisas, acabaram conseguindo sucesso no empreendimento, que é tocado pela família: o pai faz as vezes de "host", a mãe e a sogra cuidam da cozinha, o filho, do caixa. Vez por outra, a casa fica cheia. E aí, se vê algo curioso: quando a casa lota, pai e filho põem-se a praguejar, desconsolados por ter de ouvir reclamações, ajudar a lavar pratos ou dar uma força na cozinha. Maldizem a prece atendida. São ótimas pessoas, mas míopes para ver os cavalos por trás da lata.

Por que lembrar disso agora? Não sei, mas acho que é uma forma de exercitar meu próprio julgamento das coisas, eu tão inclinado a desviar o olhar daquelas que são prêmios, ou olhá-las imaginando que a taça cairá sobre a minha cabeça.

A vida me deu cavalos suficientes para eu conduzir uma caravana inteira. Só não os deu embrulhados em papel de seda. Alguns vieram com grandes baldes de cocô, outros apenas disfarçados de bois, outros ainda a serem retirados em um correio longínquo. Mas todos cavalos, de boa raça. Meu desejo de ano novo é ser capaz de escová-los, encilhá-los e me pôr a caminho. Lembrando sempre de lhes garantir um merecido torrão de açúcar.
enviada por Jayme






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