Dito Assim Parece à Toa






13/12/2006 15:34

Se fué el hijo de puta



Tem festa no inferno: morreu Pinochet. Ontem, minha amiga querida Eliana lembrou aqui que, em lugar da fuga das calcinhas, eu deveria ter falado dessa negra efeméride. Tem razão, e, com o devido atraso (este é um blog-caravela), vamos ao assunto.

Minhas filhas são netas de um exilado político que viveu no Chile por nove anos. A mãe delas fala espanhol como uma chilena. Pelas mãos dela e com ela, conheci, em 1989, plena campanha eleitoral do que sucederia à ditadura, um pouco daquele país ainda começando a mitigar os machucados do golpe de estado de 73, quando aquele oportunista sangüinário, ora imerso em uma piscina de excremento em ebulição, passou de ministro da guerra do presidente Allende a seu algoz, em mais ou menos dois dias.

O Chile era então a mais estável democracia da América do Sul, com 70 anos de estado de direito, fundado em alternância de poder, partidos constituídos, parlamento funcionando, enfim, nada a dever a uma democracia européia típica. Há quem queira atribuir tudo isso à imigração alemã do fim do século 19, começo do século 20, que teria feito um bom pendant com a latinidade do país. Há quem ache essa teoria um horror. Não importa, o fato é que ali havia uma ilha de civilização neste continente atrasado, no qual os dois países mais ricos tinham uma história política que se alternava entre o burlesco e o carnavalesco, com imperadores, generais, marechais e até vedetes tomando a cena e o poder. O Chile produzia cultura, reunia intelectuais exilados das ditaduras dos vizinhos, sediava organizações internacionais, e, como um bom país civilizado dos anos 60 e 70, discutia seu destino político levando em conta o sonho que as esquerdas cultivavam, de uma sociedade mais justa e igualitária, com o povo no poder, em lugar de uma burguesia exploradora, com a riqueza sendo dividida, mais do que com justiça, com largueza, “de cada um, de acordo com suas possibilidades, a cada um de acordo com suas necessidades”.

O povo se apaixonou por Salvador Allende e pela UP (Unidad Popular), a coligação de (quase) todas as esquerdas, que prometia tornar real o sonho de uma sociedade mais igual. A Democracia Cristã do então presidente Eduardo Frei (pai deste Eduardo Frei Ruiz Tagle que foi o segundo presidente eleito depois da restauração da democracia) perdeu feio, e o sonho socialista parecia chegar à América do Sul pela via democrática.

A vida real se mostrou mais ingrata, e o projeto socialista de Allende começou a gerar problemas econômicos sérios. Estatizações precipitadas, congelamento de preços, somados a um combate implacável da burguesia derrotada, que teve um ápice na crise da greve dos caminhões, com desabastecimento, enfrentamento nas ruas e até a morte de um cinegrafista americano que filmou seu próprio algoz -- cena famosa nos anais do telejornalismo --, tudo isso montou um cenário em que o presidente ficou extremamente fragilizado.

Mas como se deu o golpe, tendo em conta que, até então, os militares chilenos eram apenas coadjuvantes respeitosos dos governos e do Estado? A paranóia americana instalou na crise o que a ela faltava. O secretário de Estado Henry Kissinger, um alemão naturalizado americano, que certamente foi o homem mais influente do mundo naqueles tempos, urdiu o apoio financeiro e logístico que incentivou os até então discretos e disciplinados militares chilenos a se insurgir e derrubar o presidente e o estado de direito. Tudo em nome da Guerra Fria.

Foi com dinheiro e logística dos EUA que o oportunista chegou ao poder. Foi Kissinger quem fabricou Pinochet. Por isso tudo é que hoje, enquanto levanto aqui diante deste teclado, um brinde solitário ao fim desse signo do mal, me pergunto como é que este mundo, hoje convencido de que a democracia é mesmo um valor absoluto, ainda não colocou Henry Kissinger na mesma sala de horrores da história em que estão depositados Hitler e Mussolini. Kissinger é exatamente a mesma coisa que os dois. Só que com a lógica do franchising.

***
Como se vê, dá para escrever mais um quilômetro sobre o assunto. O próximo capítulo deveria versar sobre a conversão de Patricio Aylwin, de colaboracionista a condutor maior da transição. A vida tem dessas coisas. Não sei se sou capaz de falar mais delas com a devida propriedade.
enviada por Jayme






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